terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Tela

Num fogueiro de paz, mar e Lucina
escorria tinta pela praia do Batel Azul
- há um brilho no monumento à onda
e cheira-se o frio da solidão:
gota da torpeza do olho
que me não tocou.

Há amor e recheio para dias,
ou horas ou qualquer peça ampulhetada.

Eu fui prisão de tudo:
o Crescente, deus de calor e oceano.
Porque não me bastaste,
Oh Sophia,
quando à brisa eras cal?

Entendesse o cuspo dos meus dedos
e a música deste cheiro me encantaria:
esterco à vida e aroma de pouca pátria.
As aranhas tecem cortinas
à vista do nascer da lua -
rua prata
e um vento de voz pranto
sacode-me a cabeça:
Qual o peso do céu se caísse
e do chão se voasse?

Paz ao espaço
para que Negras costurem
seda peçonhenta.
Quantas patas têm para si,
gananciosas por um corpo de vários.

Eis… catábase lunar e claridade nova!
Que te vás, peço-te…
antes prata que ouro.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Sede crepuscular -
leite de cabra mal parida,
musgo e húmus de berço;
trevo, rosa e silva de pasto.

Queimara mato à dentada
e uma cinza láctea
abandona-se pela teta.

Um tostão
por um adeus,
um jarro de vinho
por meio dente nu.

Queijo e trigo mastigado
e pinta-se o generoso quadrúpede
- ainda com a ruína poeirenta no focinho,
guarda um bicho no bucho.

Façam-no alado
para que masque o branco
e deixe o pó ser estrume.
Amigo, pai, irmão:
pedi um canteiro de cidreira e salsa.

Imaginei um gato que arranhasse a terra
e lhe desse dádiva de si;
um cão que ruminasse o verde,
enojado;
um sapo que ali morresse
de velhice.

Pousou antes um pardal
e benevolente, ofertou a semente
da sua fome.
Cresce uma cerejeira naquele canteiro
e é de apetite comer-lhe a flor.

Chora medonho, chora!
Façam-te as lágrimas em sangue,
suporte o teu rosto as minhas veias!
Hoje e só hoje
prometo-me um enterro,
violino e outros madeiros,
pagos a peso de erva.

A cortejos, ritos e lutos
é dispensá-los…
só o odor neutro da morte
se faz necessário…
esqueça-se o desaparecimento
de mim e de outros!

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Bestial, quero-me animal,
um cipreste, um qualquer calhau:
oh consciência,
paixão de mil Cristos,
vai-te que de mártir
não me assenta a manga,
nem estóica orelha de jumento.

Estive por nascer,
Sémen fermento,
pouco mais do que sou.

Queira um deus
rejeitar-me a semente.
Não seja eu injusto a outro.
Perdoem-me a falta, filhos,
não o desejei.

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Conspurcou-se o chão
e não me sento.
Canso-me se de pé...
caminhada e busca...
largo-me sem pensamento -
está mais sujo...
ergo-me, sacudo
o recamo porcaria
e brotou nódoa.

Emporcalhei-me e não descansei!

Fraco e enlameado,
questiono toda uma calçada.
Não encontro pedra acolhedora
nem base que me apeteça.